A insegurança alimentar gera graves implicações para a saúde e a vida das populações. Muitos determinantes sociais já foram identificados, mas a compreensão da insegurança alimentar ainda é limitada devido a uma visão fragmentada que desarticula as diferentes dimensões de vulnerabilidade. Este estudo objetiva analisar a (in)segurança alimentar sob o olhar da interseccionalidade, tendo como local de estudo duas favelas de Belo Horizonte (Minas Gerais, Brasil) e seus entornos. A análise transversal foi realizada com dados do inquérito domiciliar do Projeto BH-Viva. A variável de desfecho foi a insegurança alimentar, e as variáveis de exposição foram obtidas pela construção interseccional de indicadores de vulnerabilidade social (sexo, raça/cor e Índice de Vulnerabilidade Socioeconômica Sensível à Insegurança Alimentar - IVSIA, construído a partir dos domínios trabalho e renda, escolaridade e condições de domicílio). As associações entre a insegurança alimentar e as exposições foram estimadas por meio de modelos de regressão logística, e o efeito das categorias de interseccionalidade sobre a insegurança alimentar foi capturado por termos de interação apropriados. Entre as pessoas em condições socioeconômicas desfavoráveis (IVSIA), as mulheres negras apresentaram as maiores chances de apresentar insegurança alimentar (OR = 7,50; IC95%: 3,20-17,58) do que homens negros e mulheres brancas. Os resultados revelam que a insegurança alimentar é marcada por processos de vulnerabilização interseccionais, em que se sobrepõem os efeitos de privação socioeconômica, sexismo, patriarcado e racismo. Dessa forma, reforçam a necessidade de pesquisas com abordagens interseccionais para identificar os padrões e as principais vítimas da insegurança alimentar, bem como a urgência de políticas públicas voltadas para as necessidades desses grupos.
La inseguridad alimentaria tiene graves implicaciones para la salud y la vida de las poblaciones. Ya se han identificado muchos determinantes sociales, pero la comprensión de la inseguridad alimentaria sigue siendo limitada debido a una visión fragmentada que desarticula las diferentes dimensiones de la vulnerabilidad. Este estudio tiene como objetivo analizar la (in)seguridad alimentaria desde la perspectiva de la interseccionalidad, teniendo como lugar de estudio dos favelas de Belo Horizonte (Minas Gerais, Brasil) y sus alrededores. El análisis transversal se realizó con datos de la encuesta domiciliaria del Proyecto BH-Viva. La variable de resultado fue la inseguridad alimentaria, y las variables de exposición se obtuvieron mediante la construcción interseccional de indicadores de vulnerabilidad social (género, raza/color e Índice de Vulnerabilidad Socioeconómica Sensible a la Inseguridad Alimentaria -IVSIA, construido a partir de los dominios de trabajo e ingresos, educación y condiciones de vivienda). Las asociaciones entre la inseguridad alimentaria y la exposición se estimaron mediante modelos de regresión logística, y el efecto de las categorías de interseccionalidad en la inseguridad alimentaria se capturó mediante términos de interacción apropiados. Entre las personas en situación socioeconómica desfavorable (IVSIA), las mujeres negras tenían más probabilidades de desarrollar inseguridad alimentaria (OR = 7,50; IC95%: 3,20-17,58) que los hombres negros y las mujeres blancas. Los resultados revelan que la inseguridad alimentaria estuvo marcada por procesos de vulnerabilidad interseccional, en los cuales se superponen los efectos de la privación socioeconómica, del sexismo, del patriarcado y del racismo. Por lo tanto, se refuerza la necesidad de investigación con enfoques interseccionales para identificar los patrones y las principales víctimas de la inseguridad alimentaria, así como la urgencia de políticas públicas dirigidas a las necesidades de estos grupos.
Food insecurity has serious implications for populations’ health and lives. Many social determinants have been identified, but understanding food insecurity remains limited due to a fragmented view that segregates vulnerability dimensions. This study aims to analyze food (in)security based on an intersectional perspective, having two favelas in Belo Horizonte (Minas Gerais State, Brazil) and their surroundings as its studied site. This cross-sectional analysis was carried out with data from the household survey of the BH-Viva Project. Food insecurity was chosen as the outcome variable and the intersectional construction of social vulnerability indicators (sex, race/skin color, and the Socioeconomic Vulnerability Index Sensitive to Food Insecurity - IVSIA, constructed from the domains of work and income, education and housing conditions) was used as the exposure variables. The associations between food insecurity and the exposure variables were estimated by logistic regression models and the effect of the intersectionality categories on food insecurity was obtained by the appropriate interaction terms. Among people in unfavorable socioeconomic conditions (IVSIA), black women were more likely to have food insecurity (OR = 7.50; 95%CI: 3.20-17.58) than black men or white women. Results shows that food insecurity includes intersectional processes of vulnerability that overlap the effects of socioeconomic deprivation, sexism, patriarchy, and racism, thus reinforcing the need for intersectional research to find the patterns and main victims of food insecurity and the urgency of public policies toward these groups’ needs.